Recreio Limpo promove ações sustentáveis para melhorar a praia e o bairro

 

Um mergulho no mar, um banho de sol, uma conversa tranquila com os amigos — e lixo ao redor. Em terra firme ou na água, sacolas, copos, canudos, garrafas, guimbas de cigarro, embalagens e uma variedade de objetos deixados para trás após um dia na praia poluem e alteram a paisagem. O incômodo gerado pela degradação, comum entre os moradores do entorno, se desdobrou em ação, há dois anos, com a criação do movimento Recreio Limpo. No intuito de mudar o cenário e o comportamento dos banhistas, coordenadores e voluntários têm realizado mutirões e oficinas. O próximo passo, previsto para este ano, é sensibilizar comerciantes.

O movimento parte do desejo de promover educação socioambiental na região. O grupo é pautado pela premissa de ensinar a não sujar, e não a somente promover mutirões de limpeza, embora eles façam parte de sua agenda. Organizações de segmentos distintos têm se unido a fim de contribuir, cada uma à sua maneira, para conscientizar os frequentadores, tanto os moradores do bairro como quem vem de fora.

A proposta partiu de Betania Aprile, proprietária do Hostel Rio Surf ‘n Stay, a partir de suas próprias experiências e do relato dos hóspedes sobre as condições do trecho de praia próximo a seu empreendimento, em especial após fins de semana de altas temperaturas e areias lotadas. Em seguida, ela saiu em busca de parceiros. Gilda Esteves e Simone Milach, fundadoras da Blue Change, iniciativa pela conservação dos ambientes marinhos e costeiros, logo aderiram.

— Estamos na época da colaboração e de inteligência coletiva. Para problemas globais, é preciso criar juntos soluções locais — diz Betania.

Cuidar da praia foi o ponto de partida do movimento, mas novas questões entraram na pauta, e ele vem se estendendo para as ruas e avenidas do Recreio. Para cada grupo — crianças, banhistas, consumidores, surfistas e comerciantes —, há uma abordagem, concebida para fazer repensar o consumo e o impacto de suas atitudes.

— Estamos vendo como abordar a reciclagem do óleo dos comércios do Terreirão e como fazer mercados e lojistas repensarem a quantidade de sacolas plásticas — conta Betania.

Orientação e educação são pontos trabalhados durante as trilhas realizadas pela ONG Palma, de Vargem Grande, também integrante do Recreio Limpo. A meta, agora, diz Lincoln Tesch, representante da entidade, é mobilizar bares, mercearias e quiosques:

— Queremos ir além de catar lixo na praia. A próxima fase é orientar as pessoas a chegarem com menos coisas para descartar. Com os comerciantes, vamos falar do descarte correto. Queremos atacar a raiz do problema. Mais importante que catar lixo é informar.

O surfista Angelo Hereda foi um dos primeiros a aderir ao movimento. Criador da escola Hereda Surf, com um hostel anexo, ele diz que a sujeira das praias do bairro, em especial na altura do Posto 12, obrigou-o a mudar hábitos. Pegar onda por diversão, só durante a semana. E, volta e meia, é preciso cancelar as aulas da escolinha.

— O surfista convive com o lixo do mar. Nas aulas há alunos que não querem entrar na água por causa da sujeira em volta — reclama.

A situação levou surfistas do Recreio a escreverem um manifesto que lembra o compromisso do homem com o meio ambiente e tem sido divulgado em campeonatos.

Conscientização com diálogo

Moradores do bairro também se têm se mobilizado. Marcello Sylos participou do último mutirão de limpeza do Recreio Limpo, após ver uma postagem no Facebook. A reciclagem de embalagens, bem como de óleo de cozinha, já é um hábito para ele, que, agora, tenta incentivar vizinhos e visitantes a fazerem o mesmo.

— O tipo de movimento me chamou a atenção. Vejo a mudança na região acontecendo. Eu trouxe três sacos de cem litros. Como a praia estava cheia, numa área pequena conseguimos enchê-los rapidamente — diz.

O marroquino Saleh Halfi conheceu o movimento ao se hospedar no hostel de Betania Aprile e também aderiu.

— É preciso reaproveitar o que pudermos, dar outros usos às coisas. Transformamos pranchas quebradas em outras menores, usadas em outros esportes — exemplifica.

Para o diálogo com os frequentadores da praia, o Recreio Limpo conta com a ajuda de acadêmicos, que procuram demonstrar na prática os danos causados pela poluição. A areia é transformada em laboratório com auxílio da Blue Change, que fala em ciência cidadã.

Mangue e tal. Elizabelle Provenzano comanda oficinas para crianças durante mutirões Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
Mangue e tal. Elizabelle Provenzano comanda oficinas para crianças durante mutirões Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

— Queremos aproximar a pesquisa da sociedade, e a sociedade do meio ambiente. Por isso um movimento diferente de só catar lixo. É de saúde pública, de impacto nos negócios do entorno — conta Simone Milach, cofundadora da entidade. — Quando chamamos para o evento, vem quem é convertido à causa, e temos que conversar com quem não é. E essa é uma linguagem diferente da nossa. Trouxemos pesquisadores da UFF para um experimento de recolhimento de microplástico na areia com crianças. É preciso ir além, conscientizar não só falando para não jogar lixo no chão ou o que pode matar o bichinho, mas envolvendo-as no processo.

— Usamos o que é coletado para as oficinas, fazemos narração de histórias. A criança absorve a mensagem mais rápido — diz Elizabelle Provenzano, fundadora da ONG.

ONG Palma. Dos parques para a praia, Lincoln Tesch fala da preservação em locais de lazer Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo
ONG Palma. Dos parques para a praia, Lincoln Tesch fala da preservação em locais de lazer Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Os participantes de ações do Recreio Limpo também podem sair de lá com brindes que levam à reflexão. É o caso do Meu Copo Eco, copo reutilizável vendido pela empresa homônima para eventos e oferecido em alguns eventos realizados pelo movimento.

— Estudos afirmam que em 2050 haverá mais plástico que peixes nos oceanos se não mudarmos hoje o que fazemos — aponta Elisa Facó, representante da marca e educadora ambiental. — Trocar o descartável pelo durável leva a repensar o consumo de tudo.

Gilda Esteves, cofundadora da Blue Change, resume a situação no Recreio:

— Não é uma praia em total degradação. Mas o bairro está crescendo, e queremos deixá-lo mais sustentável. Hoje, o comportamento é incoerente. O frequentador vem à praia pelo que ela tem de bom, mas prejudica o ambiente.

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