A casa do futuro: tendências para o Rio

O Globo, Raphaela Ribas, 21/jul

Como será a casa do futuro? Com mais recursos tecnológicos, certamente. Com robôs servindo cafezinho? Nem tanto… As residências nas próximas décadas tendem a ser mais compactas, alugadas, sustentáveis e com áreas de serviço integradas.
Isso porque a chegada das novas gerações como tomadores de decisão na compra está transformando o consumo no mundo e faz com que o mercado se reinvente. Um estudo feito pela Associação Brasileira de Incorporadoras Imobiliárias em parceria com a Deloitte com jovens das gerações Baby Boomers, X, Millennials e Z mapeou as características das residências, considerando o processo de compra, a infraestrutura do imóvel e o comportamento do consumidor de imóveis para 2040.
A principal tendência observada é o compartilhamento de espaços, e o foco será a busca por comodidades e facilidades no dia a dia. Com isso, as soluções serão cada vez mais personalizáveis, customizáveis, flexíveis e adaptáveis. Agrega-se a estes dados a sensibilidade do consumidor aos preços, devido ao crescimento da atividade econômica em níveis mais baixos do que em décadas anteriores.
Desapegados de residência fixa, com diferentes perspectivas de relações de trabalho, sem empregos vitalícios e famílias grandes, a tendência, no caso dos imóveis, é que haja um crescimento no aluguel, especialmente de unidades menores (de 17m² a 35m²) e bem localizadas. Em contrapartida, os empreendimentos passam a ter áreas comuns que são extensões da casa, como lavanderias, coworking e sala de jantar (ex-espaço gourmet), entre outros.
VIDA COM MENOS RAÍZES
Para Vicente Ferreira, professor do Coppead, as adaptações do mercado imobiliário para esse nicho não são apenas uma mudança geracional e cultural.
– Existe pressão por custo também. Notamos que, nas novas gerações, não há mais essa necessidade de ser “o dono”. É uma vida mais flexível e com menos raízes – diz ele. Vicente também destaca outra pressão, esta positiva, que é a pegada mais leve, sem desperdícios e de aceitação do compartilhamento, do coliving. E também que, se as pessoas ficam mais solitárias, isso ajuda a quebrar a solidão – a tendência é de somar forças.
O presidente da Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário, Claudio Hermolin, destaca ainda a mudança no perfil da composição das famílias.
– O tamanho da família brasileira vem encolhendo ao longo dos anos. As pessoas estão tomando a decisão de casar mais tarde, de ter filhos mais tarde – analisa Hermolin.
Entre as outras novidades nos imóveis decorrentes das mudanças de consumo, ele aponta, por exemplo, a instalação de compartimentos refrigerados ou aquecidos na entrada dos condomínios frente ao aumento do consumo de alimentos pedidos por aplicativo.
– Os condomínios também terão carros, elétricos ou não, compartilhados para os moradores. No fim, essas pessoas estão mais preocupadas em aproveitar melhor o tempo. Elas querem se deslocar menos, com menos estresse, não ter que estacionar. A consequência disso é que imóveis precisam entender essa nova demanda.
O professor da FGV Paulo Pôrto explica que estas mudanças no consumo de imóveis já começam a se refletir nas construções.
– Residir perto do trabalho já é uma demanda nas grandes cidades e os microapartamentos se tornam uma opção para morar bem em locais caros – afirma o professor, que destaca ainda que as vagas de garagem também devem mudar. Por exemplo, com sistemas de manobristas ou estacionamentos verticais.
Diante disso, as incorporadoras já se antecipam e começam a focar neste nicho. Neste sentido São Paulo está mais avançado, mas o Rio dá seus primeiros passos. A Concal, por exemplo, vai lançar ainda neste ano, em São Cristóvão, um complexo com três empreendimentos de unidades de 35m² a valores médios de R$ 300 mil.
CONSTRUTORAS ALUGAM
Há rumores também sobre outros lançamentos neste modelo compacto, especialmente após o Novo Código de Obras entrar em vigor. Segundo Pôrto, outro modelo que também é mais adiantado em São Paulo é o desenvolvedor imobiliário, no qual, a exemplo do que acontece lá fora, a empresa assume as duas pontas do negócio. – Compram os terrenos, constroem e, em vez de pôr para vender, alugam. No Rio, ainda estão especulando – explica Pôrto.
Vicente Ferreira, do Coppead, concorda com Pôrto e acredita que o impacto desse modelo é positivo. Por outro lado, o novo jeito de fazer negócios pode gerar conflito de interesses, uma vez que a construtora, quando entrega o empreendimento, dá uma garantia de cinco anos – e a gestão locatícia vai requerer manutenção por um prazo mais longo para a construção.
Apesar de todas as mudanças por conta do novo perfil de comprador, todos ponderam que o imóvel no Brasil ainda é visto como um bem de ouro. Diante de tantas crises e instabilidades políticas e financeiras, especialmente para a geração que hoje tem mais de 35 anos, é também uma garantia de futuro e, por mais que o aluguel cresça entre as gerações mais novas, os imóveis tradicionais ainda terão vida longa.
O presidente da Concal, José Conde Caldas, acredita que este modelo de comprar, construir e alugar não vingará no Brasil por questões culturais. Além disso, ressalta que o mercado de luxo no Rio, em especial, volta com força nesse ano. – Este modelo é comum nos Estados Unidos, mas lá é outro perfil de comprador. Aqui no Brasil, temos a cultura portuguesa enraizada. O objetivo é comprar a casa própria, a propriedade tem outro peso. Além disso, o sistema de financiamento de habitação é muito diferenciado dos de outros países, privilegiando os compradores.
A vista é o pano de fundo na decoração de apartamento em Niterói
Outra pesquisa, esta realizada pela WGSN, especialista em previsões de tendências, traz as principais diferenças a cada geração quando o assunto é moradia. De acordo com o estudo, para a Geração X, que hoje tem de 41 a 54 anos, o bem-estar é importante e a casa se transformou em um local para expressar sua individualidade e gosto, considerando desde o status das cozinhas até o quarto das crianças.
Já a Geração Y (de 26 a 40 anos), também chamada de Millennials, tem uma característica mais disruptiva do conceito de morar e busca soluções que atendam ao seu estilo de vida. Podem ser unidades menores e há uma preferência para imóveis amigáveis aos animais de estimação.E como eles passam mais tempo em casa, precisam de espaços adaptáveis para trabalhar, cozinhar, relaxar e também se divertir.
A Geração Z, que compreende os nascidos de 1994 a 2009 (10 a 25 anos), por sua vez, tende a optar por espaços menores, mais conectados e com áreas verdes. Nota-se que a tendência de otimizar tempo, morando perto do trabalhou ou faculdade, que já é observada para a Geração Y, no caso deles torna-se essencial. Farão sucesso para este público casas que oferecem soluções inteligentes, com sistema de automação relacionado à iluminação, entretenimento e câmeras conectadas a um único dispositivo, por exemplo.
 E, acredite, o estudo também mapeou os que ainda praticamente nem saíram das fraldas. Para a chamada Geração Alpha, que engloba quem nasceu entre 2010 e 2018, a casa da família passa a ser muito mais conceitual do que física. É a primeira geração totalmente digital e deve usar recursos como realidade aumentada, arquitetura digital e robôs sociais, entre outras soluções que vão surgir com as demandas.
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