Em 2017 mais brasileiros passaram a viver em imóveis cedidos, diz IBGE

Por causa da crise, mais de seis milhões moram sem pagar aluguel em imóveis emprestados. Pesquisa mostra um retrato dos lares brasileiros.

Um número maior de brasileiros passou a viver em imóveis emprestados no ano passado, principalmente por causa da crise. É o que mostra um levantamento do IBGE, que fez um novo retrato sobre os lares do país.

A Rua da Felicidade é uma tristeza só. O endereço da Dona Terezinha, na periferia da capital do Piauí, é um retrato do Brasil que ainda tem carências básicas. A rua não tem asfalto, não tem coleta de lixo, não tem água encanada, não tem rede de esgoto.

“Eu costumo dizer que só temos alguma cidadania por causa da energia. Nas outras coisas, a gente vive numa total miséria. Não tenho um banheiro para me banhar, tenho que pedir a um vizinho”, diz Terezinha Diego Rodrigues.

De 2016 para 2017, o país praticamente não expandiu a rede de esgoto, que só chega a 66% das casas brasileiras.

Sem avanços, o Brasil continua longe de alcançar um dos objetivos do desenvolvimento sustentável traçados pela ONU: chegar a 2030 com saneamento básico para todos.

Dona Terezinha é um exemplo de um país de contradições. Ela ainda lava a louça com água armazenada em baldes, mas se comunica pelo celular. O aparelho está presente em 92% dos domicílios e já tirou espaço do computador e do telefone fixo, que está desaparecendo das casas brasileiras. O velho aparelho só resiste em um terço delas.

Na casa da Desyrée, parece até peça de museu: “Por uma questão cultural a gente acaba não aposentando, mas acho que daqui a alguns anos isso vai acontecer mesmo”.

Ela mora no Rio de Janeiro, numa casa onde pode colher caju do próprio quintal. E não é a única vantagem que ela tem. A Desyrée não é proprietária da casa nem paga aluguel. O imóvel é da família, que emprestou para ela morar num momento de muitas mudanças na vida e de crise no país. E o número de brasileiros vivendo assim cresceu.

A história de Desyrée ajuda a explicar os números do IBGE. Dos quase 70 milhões de domicílios do país, mais de seis milhões estão cedidos para outras pessoas – por parentes, amigos ou empresas a funcionários. O aumento foi de 7% de 2016 para 2017.

“Isso tem a ver com menor renda e um desemprego muito maior que a gente verificou nos últimos dois anos, e esse desemprego maior gera uma renda menor para a população e, consequentemente, se buscam alternativas menos onerosas”, diz o economista Mauro Rochlin.

Poder morar de favor ajudou Desyrée a criar coragem de abrir o próprio negócio, mesmo durante a crise. E como o escritório também funciona dentro de casa, é mais um aluguel que ela economiza. “Se eu não tivesse essa união familiar, das pessoas entenderem, abraçarem minha causa e meu sonho, e me abrirem essa oportunidade, talvez eu não estivesse hoje realizando essas coisas”, acredita ela.

A pesquisa também mostra que o número de imóveis alugados do país aumentou. E aqueles em que o morador é o proprietário, mas ainda está pagando as prestações, diminuíram 4,5%.

“Ou é porque esses imóveis já foram quitados, ou porque tem menos gente entrando em novos financiamentos, ou ainda porque essas pessoas podem não ter conseguido continuar pagando e se desfizeram desses imóveis”, afirma a pesquisadora do IBGE Maria Lúcia Vieira.

Com o dinheiro que está economizando, a Desyrée quer comprar um apartamento no futuro. Mas vai ter para sempre uma dívida de gratidão com a família, que vai pagando como pode. Por enquanto, com moedas que têm valor afetivo. “Minha tia tem a chave, minha mãe tem a chave… Eles vêm aqui, pegam caju e já saem comendo do pé. O pagamento é em caju”, diverte-se ela.

Fonte: Jornal Nacional – Edição 26/04/2018

 

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