Conheça um pouco da arquitetura equestre no Brasil e pelo mundo

Domesticar cavalos é uma prática muito antiga. Sua criação envolve muito mais do que contê-los em uma área restrita e alimentá-los. Os proprietários precisam estar atentos a uma série de cuidados, como construir um ambiente em condições mais adequadas para o desenvolvimento de seu comportamento natural e boa saúde. Pois, se tratando do campo da construção civil, a arquitetura equestre é a que estudará este tipo de estrutura – um assunto ainda incipiente no Brasil.

Primeiro, é preciso destacar que existe uma diferença entre projetar uma simples instalação para cavalos e um grande empreendimento equestre. Essa arte é bem mais complexa e necessita de um entendimento especializado. Em verdade, os arquitetos ainda precisam aprender muito sobre as funções vitais e o conforto dos cavalos, além de como eles são utilizados pelos humanos para o trabalho ou o lazer.

Por exemplo, celeiros mal construídos podem oferecer aos animais e aos tratadores graves perigos, como doenças e acidentes. Pensando nisso, o Blog da Arquitetura reuniu algumas dicas para aqueles que precisam lidar ou simplesmente apreciam esses seres tão gentis. Afinal, nada mais justo do que retribuir aos cavalos – a altura – tamanha lealdade, força, graça, beleza e resistência.

Arquitetura Equestre
Arquitetura Equestre | Haras Santa Esmeralda, em Paraopeba – MG

+ PROJETANDO UM EMPREENDIMENTO EQUESTRE

A primeira coisa que um arquiteto precisa compreender sobre empreendimentos equestres é que seu programa de necessidades irá contemplar áreas voltadas tanto a pessoas quanto a cavalos, materiais e maquinários. Entre os diferentes espaços, irão circular animais, visitantes e veículos. Por isso, todas as unidades construídas devem ser bem planejadas para que tudo fique bem inter-relacionado e devidamente conectado, sem prejudicar quaisquer funções.

Pode-se começar analisando o terreno. Sua topografia é que ditará a disposição de todas as edificações. É preciso levar em conta os melhores acessos de modo a facilitar a entrega de materiais e suprimentos. Também os sentidos dos ventos – as brisas prevalecentes no local – que indicaram o sentido do celeiro, por exemplo. Depois disso, o arquiteto já pode se dedicar àquilo que ele mais gosta, ou seja, o planejamento estético.

“Então, o planejamento eficiente economiza tempo e, portanto, dinheiro. Um bom design significa que ele requer menos passos para fazer a rotina diária, afluência, limpeza e portanto, economiza os custos do trabalho.” – arquiteto Joe Martinolich, em reportagem do site Diana Brooks.

arquitetura equestre
(imagem extraída de ArchDaily)

+ COMPREENDENDO AS NECESSIDADES DOS CAVALOS

Assim como em qualquer outro planejamento arquitetônico, se tratamento de empreendimentos equestres, também é necessário compreender quais são as necessidades e os comportamentos dos clientes. Neste caso, não importa tanto os desejos dos humanos, mas aquilo que os cavalos possam sentir diante de tal solução projetual. Muitos profissionais ainda não sabem como aplicar seu conhecimento na hora de projetar um estábulo – o local que precisa ser mais seguro e eficiente para os animais em um haras.

Por exemplo, os cavalos, ao serem isolados em baias individuais, podem se sentir inseguros, entediados e desenvolver comportamentos de ansiedade. Eles terão o instinto de lutar e correr, o que pode ser uma ameaça à sua segurança e à dos tratadores. Portanto, uma premissa básica é evitar, ao máximo, colocar barreiras físicas desnecessárias e construir espaços com dimensões menores do que o recomendado. Também é importante o arquiteto buscar soluções para estimular a sociabilidade entre os animais, fator de melhora da sua saúde.

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(imagem extraída de Architectural Review)

+ PROJETANDO UM CELEIRO

A necessidade de se construir espaços fechados, como os celeiros, tem a ver como a proteção dos cavalos em relação ao clima. Seu formato não pode ser comum, como o de qualquer outro edifício. Ele deverá levar em conta todos os princípios de eficiência e salubridade. Na parte interna, terá baias, quarto de sela, depósitos de grãos e feno, duchas, piquete, área para escovação, tronco, escritório administrativo, entre outras coisas. Já na parte externa, poderá ter uma piscina para refrescar os animais, pátio com grama, pista de areia para prática de salto e mais.

arquitetura equestre
(imagem extraída de ArchDaily)
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(imagens extraídas de Arquitetura Equestre)

+ QUANTO ÀS BAIAS

Os cavalos passam boa parte do dia comendo. Portanto, dentro das baias eles precisam de um local com alimento e água. Eles também ficam muito tempo em pé, mas precisam descansar. Por isso, seu espaço privado deve ser amplo e ter uma superfície macia e confortável. Muitos proprietários optam por fazer uma base com tapetes de borracha, que é uma opção econômica e durável. Outra ideia é ter, sob a palha natural, o intertravado. Não importa a escolha do material, desde que ele seja nem tão rígido e nem tão maleável, mesmo quando molhado.

arquitetura equestre

arquitetura equestre
(imagens extraídas de Arquitetura Equestre)
arquitetura equestre
(imagem extraída de Diana Brooks)

+ QUANTO À ESTRUTURA DOS EDIFÍCIOS

Os cavalos comem, dormem, tomam água e fazem necessidades. A urina do cavalo emite no ar um gás tóxico chamado amônia. A exposição a este gás pode queimar o trato respiratório do animal, além de aumentar a produção de muco, o que lhe causará doenças crônicas. Por isso, o edifício do celeiro precisa ter uma excelente ventilação. Ele deve permitir a passagem cruzada do ar. Uma solução é fazer aberturas zenitais e gradis vazados nas frentes das baias e porta dos fundos. O ar que está perto do chão, e que poderia transferir bactérias de um cavalo para outro, é puxado para cima e liberado fora da edificação.

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(imagem extraída de Teriinc)
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(imagem extraída de Eqliving)

Outra questão importante a ser avaliada pelo profissional de arquitetura equestre são os corredores dos celeiros. Se eles forem mal projetados podem oferecer riscos aos cavalos, ginetes e tratadores. Algumas perguntas precisam ser previamente respondidas. Como por exemplo, se no local irão circular maquinários. Isso vai determinar a largura ideal para circulação. O fechamento das baias pode ser feito com portas de correr, o que facilitaria o manuseio e manutenção de tudo. Pode-se investir também na iluminação, colocando luzes gerais de qualidade, que clareiem bem as passagens; além de claraboias para o aproveitamento da luz natural.

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(imagem extraída de ArchDaily)

+ A EQUINOCULTURA E ARQUITETURA EQUESTRE NO BRASIL

Equinocultura trata-se, justamente, dessa atividade humana de criar cavalos – no Brasil ainda tem a equideocultura, que abrange animais semelhantes, como asnos, burros, jumentos, mulas e bardotos. A chegada destes quadrúpedes no país data do ano de 1549. No período colonial, sua criação foi bastante valorizada. Depois disso, a experiência em construir instalações e empreendimentos equestres só aumentou. Mas, mesmo passado tantos anos, muitos erros ainda são cometidos e poucos são os materiais especializados para consulta encontrados.

Atualmente, existem muitos haras e hípicas espalhadas em território nacional. Algumas são mais bem planejadas, como é o caso do Hotel Fasano, na Fazenda Boa Vista, no interior de São Paulo. São 740 hectares de reserva florestal e um centro equestre, projetado por Isay Weinfeld, comparado aos melhores do mundo. E também há os pouco ou nada planejados, replicando, equivocadamente, padrões construtivos de fora.

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(imagem extraída de Fazenda Boa Vista)

Estima-se que 95% das construções equestres no Brasil tenham privação de luz natural. O erro está baseado na ideia de que, em um país de clima quente, baias mais escuras tornariam o lugar mais fresco para os animais. Isto não é verdade. Pelo contrário, só fica mais úmido e abafado. Nem mesmo instalar ventiladores resolve – e ainda poderia espalhar as bactérias. Conclui-se, portanto, que os projetistas, tanto dentro quanto fora do país, ainda precisam estudar muito mais o assunto.

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