Menos é mais

A vida sem excessos, funcional e confortável comanda o estilo

Batizada de Tiny Movement nos EUA, a tendência ao desapego vira desprendimento e vincula a qualidade de vida a um estilo simples de encarar o dia a dia, além de estimular o consumo responsável, a ideia de compartilhamento e o senso de comunidade.

Viver só com o essencial, ter uma vida mais simples. A ideia, que há pouco tempo soava pueril, hoje ganha um batalhão de entusiastas. Mesmo porque acumular não se alinha com as necessidades do mundo contemporâneo. As pessoas perceberam que preservar recursos é vital e, com esse olhar, surgiu uma nova ordem.

“Os recentes modelos de economia colaborativa que incluem uma visão original de gestão e de relações de trabalho não hierárquicas acabaram por resultar no consumo consciente. Ter ficou menos importante do que reutilizar e compartilhar”, explica o sociólogo italiano Francesco Morace, presidente do Future Concept Lab, especializado em tendências.

Ou seja, sob a ótica do desprendimento, a ideia primordial do desapego é clara: a preferência por acumular experiências e não bens materiais, por partilhar e não simplesmente possuir. Outro ponto que aparece com esse comportamento é o desejo por um contato maior com a natureza, com o que é puro, original, essencial.

E foi justamente essa busca que levou o casal Luciana Pitombo e Felipe Stracci, também arquitetos, a viver de uma forma mais simples e sustentável, mesmo em meio ao caos de São Paulo. Eles reformaram um apartamento antigo e preservaram esquadrias e revestimentos originais. Na decoração, optaram por incluir muitas plantas e peças que possuam algum significado, e nada em excesso. “Não temos carro, usamos bicicleta para nos locomover. Nossa casa expressa muito o que nós somos”, diz Luciana.

Diretora comercial de uma marca internacional de luxo, a paulistana Patricia Gaia mudou radicalmente
a perspectiva sobre seus objetos quando resolveu fazer uma viagem em 2015, durante um período sabático.
“Tive que me desfazer de tudo o que era supérfluo para poder alugar meu apartamento – e resumi tudo o que tinha à mala de 20 kg”, conta. Ela distribuiu roupas, objetos e utensílios entre suas duas filhas. “O desapego é um aprendizado, uma quebra de paradigma. Acho que as pessoas precisam rever conceitos para entender melhor o que realmente necessitam para viver bem”, acredita.

A ideia da “vida que cabe dentro de uma mala” também se aplica ao estilo de viver do fotógrafo Victor Affaro, que já morou em Londres e Nova York e hoje tem endereço fixo em São Paulo. “Se eu quiser viajar ou morar em outro lugar a qualquer momento, eu vou facilmente. Vendo tudo e fico apenas com meu equipamento de som, os discos, o laptop e a câmera”, garante.

Ainda em sintonia com essa nova concepção, há o compartilhamento de casas. Uma pesquisa feita pela londrina SpareRoom, empresa que oferece aluguéis de quartos em residências, mostrou o aumento de 71% na procura por esse tipo de serviço desde 2013. “Dividir um quarto e banheiro com um estranho é um mercado em crescimento”, diz Mariana Santiloni, expert do portal de tendências WGSN.

Outro salto significativo no interesse desse tipo de serviço ocorreu também no Brasil. “Quando iniciamos as operações, em 2012, havia 3,5 mil anúncios de hospedagem no país. Hoje, a plataforma conta com cerca de 100 mil em todos os estados brasileiros”, informa Leonardo Tristão, diretor-geral do Airbnb nacional. Seja qual for a opção, morar de uma forma simples ou dividir o mesmo teto com alguém, o desapego une as pessoas em torno de um pensamento comum, mas verdadeiro: menos é mais, sempre.

Vida Social

Apês minúsculos e uma profusão de áreas comuns bacanas, para encontrar os vizinhos, definem o formato dos novos co-livings

O que você prefere: um quarto espaçoso ou companhia para jantar? Se você mora só e escolheu a segunda opção, faz parte do público-alvo dos co-livings, um tipo de empreendimento que começa a fazer sucesso nas grandes cidades. Em Londres, as vagas nos 550 apartamentos do The Collective Old Oak, considerado o maior condomínio do gênero no mundo, se esgotaram em apenas seis meses.

O sonho de seu fundador, Reza Merchant, dono da start-up do mercado imobiliário The Collective, era oferecer mais que um teto, a preços competitivos, numa cidade cara. O empresário quis dar aos moradores – na maioria jovens profissionais hipsters – a sensação de comunidade. Há ainda a questão do desprendimento: um apê com quarto e banheiro basta. O resto (jardins, spa, biblioteca, sala de estar, de jogos, academia) é compartilhado.

A ideia é se sentir parte de uma turma – com privacidade. Morar no The Collective custa em torno de 4 mil reais mensais (com contas de água, luz, internet, faxina e até roupa de cama inclusos), um preço muito convidativo para Londres.

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